Estante do Refúgio: "Perdi meu amor para um câncer"

29/09/2014

"Perdi meu amor para um câncer"


Gente, eu estava vendo os posts da Isabela Freitas (amo mais que a vida!) e me deparei com a história mais emocionante que eu já li em toda a minha vida. Vale a pena conferir!

"Perdi o homem da minha vida pra um câncer. Eu sou S., tenho 26 anos, trabalho com mercado financeiro e perdi meu namorado a 7 meses para uma leucemia. Fui morar em BH a trabalho em 2011 e passava muito tempo em casa sozinha. Um dia conversando com uma amiga, papo vai, papo vem ela me contou sobre um colega nosso de escola. Ele tinha descoberto que estava doente. Estava com LMA( Leucemia Mieloide Aguda). Nunca tivemos muito contato na escola. Eu sempre certinha, achava ele tonto demais, bagunceiro demais, mulherengo demais. Nunca tivemos afinidade. Pelo menos não até aquele telefonema. Ele me contou que estava bem, estava super animado e confiante, que ia sair dessa e ia me convidar pra tomar um chopp para comemorarmos.  Trocamos email e começamos a nós falar diariamente, o dia todo. Ele reclamava do clima e da comida de hospital e eu reclamava por estar longe da minha família e dos meus amigos. Arrumamos algo  em comum: A fome e a reclusão do mundo.
Como vinha para SP semanalmente, comecei a visita-lo no hospital. Depois de alguns meses não agüentando mais ficar longe de todo mundo voltei pra casa. Fiz as malas e vim embora. Felipe estava ainda em tratamento e não podia sair pra muitos lugares. Então passávamos a maior parte do tempo ou na minha casa ou na casa dele. Passávamos horas batendo papo, dormindo, rindo, comendo. Não tinha nada que eu fazia que não chamava a ele. Não tinha nada que ele fazia que não me chamava. Todo mundo começou a comentar, brincar que estávamos namorando específico. Acho que todo mundo percebeu antes mesmo de nós dois. 
Em março de 2012 depois de sessões pesadas de químios o Fe se internou para o transplante de medula. Foram longos dias sem visitas, sem notícias. Dias cheios de angústia. Quase surtei.  Chorava, chorava e chorava. Até que um dia ele me mandou uma mensagem dizendo: Palhaça, a medula pegou! To salvo! Ganhei a vida de novo.
Depois de dias de angústia pude finalmente respirar de novo.  Aos poucos fui tendo meu amigo de volta. As conversas, os filmes no sofá da sala, os restaurantes, as sessões de cinema, os bate papos.  Éramos grudados, amigos inseparáveis. Até que no dia da formatura da minha irmã as coisas mudaram. 
Naquele baile, ele me tirou pra dançar. Aquelas luzes, os papéis caindo e ele comigo. Não poderia ter sido mais perfeito. Seus braços na minha cintura e os meus no pescoço dele, como num laço ou enforcamento desastrado, e eu não conseguia pensar em nada. Nada mesmo. Eu tava ali vivendo, dançando, olhando pra dentro dele e não pensava. Caiu a ficha! Não era só amizade! Impossível ser apenas amizade.
Era amor. O maior e mais bonito que já tive até hoje. Depois daquela noite foi que a coisa desandou. Foi tudo muito rápido e intenso.  Passava mais tempo na casa dele do que na minha própria casa. Trocávamos centenas de mensagem por dia. Eu que nunca gosto muito de ninguém gostei tanto dele. Baixei a guarda, me entreguei de corpo e alma. Brigávamos muito muito muito. Mas sempre fazíamos as pazes. Pela primeira vez na vida eu senti a sensação de querer quem eu tinha. Eu o amava. Ele me amava. E apesar de um odiar o outro as vezes, o amor sempre falava mais alto. Seria tudo perfeito se a leucemia não tivesse voltado.
No final de 2012 notei o Fe calado, distante, irritado. Estava  sempre cansado, irritado, nunca queria sair. Totalmente o oposto do cara que convivi por tantos meses.  Tentei fazer com que ele me dissesse o que estava havendo mas foi inútil. Até que um dia ele me chamou pra conversar e disse q já não nós entendíamos muito bem é que achava melhor terminar nosso namoro para que não estragássemos a amizade. Fiquei devastada. Sem entender. Nossa brigas eram brigas normais. Não tinha motivos pra tudo aquilo. Pelo menos eu achava que não.  Mas o Fe tinha. Ele estava doente de novo. E sabendo tudo que teria que passar novamente, terminou comigo pois não achava justo eu ter que sofrer com ele tudo que ele tinha que sofrer. 
Ele era obrigado a passar por tudo aquilo, mas eu não. Um dia deixei meu orgulho de lado e fui procurá-lo. Chegando na casa dele o encontrei aos prantos no quarto. Foi aí que ele me contou. Acho que por alguns segundo meu mundo saiu de órbita. Até digerir tudo aqui… Tive medo, pânico, pavor… Não sei explicar o nome do que senti. Engoli todo o desespero, o abracei e disse que ele não estava sozinho. Que ele querendo ou não, era do lado dele que eu ia ficar. Enfrentaríamos tudo juntos e ele iria ficar bom pra me levar pro altar. Porque era com ele que eu iria casar. 
Hospital Edmundo Vasconcelos. Ali virou nossa segunda casa. Quimioterapias, vômitos, náuseas, efeitos colaterais,  dor, angústia, medo… Muita coisa ruim. Mas acho que nesse hospital foi onde aprendo o verdadeiro sentido da palavra amor. Nos dias "bons" riamos, dormíamos de conchinha, assistíamos filmes, batíamos papo. As vezes nem parecia um hospital.  Nos dias ruins Fe nem acordava pra dar bom dia. A essa altura já tinha largado a faculdade e me dedicava apenas ao trabalho e ao Felipe. Era uma corrida contra o tempo. Precisávamos de um doador. Sem irmãos de mesmo pai e mãe, com a família pequena as chances eram mínimas. Não dava pra saber até quando o corpo dele ia agüentar as pesadas sessões de químios. Geralmente eram 30 dias internado e uma semana em casa pra recarregar as energias. A cada dia nos tornávamos mais próximos. Acho que depois do Felipe eu passei a acreditar em alma gêmea. Era incrível como ele me conhecia só de olhar.
Em um desses intervalos em casa, eu estava no trabalho quando a mãe dele me ligou gritando: tínhamos achado um doador. O Felipe estava salvo. Ia dar tudo certo. Estava acabando. Olha eu acho que nunca na minha vida me senti tão feliz. Meu peito parecia que ia explodir de gratidão de emoção de felicidade! Mas aí aparecem mil dúvidas: será que é mesmo compatível? Será que a pessoa vai querer doar? Será que vai dar tudo certo?  Voltamos correndo pro hospital, dessa vez o São Camilo.
Começaram novas sessões de químios. Uma mais agressiva que a outra. Mas dessa vez tinha uma certeza: ia dar tudo certo. E deu. A medula era compatível, o doador aceitou doar, o transplante foi um sucesso. Depois do transplante é tudo muito sofrido e perigoso. A vulnerabilidade a infecções e bactérias é enorme. A pessoa sente dores terríveis, perde peso, sente náusea, tonturas, falta de apetite… O Fe superou tudo isso. Ele tinha vencido.
Um dias antes do meu aniversário (19/07) o Felipe teve alta. Ganhei um bolo surpresa. Tinham meus avós, meus pais, meus irmãos, minha sobrinha, meus grandes amigos e meu namorado BEM. Não tinha o que pedir na hora de apagar as velas. Estava feliz! Plenamente e completamente feliz. Acordei com café na cama e um beijo de bom dia. Infelizmente que felicidade durou pouco. Poucos dias depois o Fe começou a se sentir mau e teve que ser internado.
Não sei explicar, mas no dia que fomos para o hospital, mesmo ele estando clinicamente bem, eu sabia que ele não voltaria mais.
Foram 20 dias de internação! Os mais longos e mais sofridos. O Fe teve uma piorada rápida. A cada dia quebrei chegava lá ele parecia pior e pior. Ninguém sabia explicar como mas apesar do cuidado ele tinha contraído uma bactéria. Teve uma infecção generalizada. Comecei a ver meu amor indo embora. O desespero tomou conta de mim. É cortante não poder fazer nada para aliviar a dor de quem a gente ama. Depois de 3 dias aterrorizantes na UTI o Fe foi embora.  
É um momento que não separa ninguém por raça, sexo ou religião. Todo mundo sente o mesmo, seja dor ou impacto. Todo mundo sente. Aquele minúsculo milésimo de segundo que antecipa a pancada brusca que a gente recebe no coração. Foi assim que eu senti quando me disseram que ele tinha ido embora. 
Daquela noite de 20/08/2013 muito pouco me lembro. O que me lembro é que fiquei ali, até o último suspiro. Apesar de todo o pavor. Enfrentamos juntos. E eu morro de orgulho de ter sido a namorada do Felipe Ricardo Lopes. O ogro mais fofo e romântico que eu vi na vida. O coração maior e mais mole que eu pude conhecer. Eu cresci tanto com ele que não consigo mais voltar ao tamanho que tinha antes, como se eu estivesse fora do lugar, sabe? Sem ele eu sinto que não me encaixo mais na minha própria vida. Eu sei que um dias as coisas vão voltar ao “normal”. É só que o mundo com ele era mais seguro.
Não sei se ele soube, mas as minhas melhores ações são sobre ele – e que as minhas maiores confissões envolvem o que é nosso e o que ninguém mais sabe. Nem você ele. Ele nunca soube mas ele me salvou de mim mesma.   Eu sei o cheiro dele de cor e salteado. Eu sinto de vez em quando no meu quarto. Mesmo que ele não esteja aqui.
Nos falávamos do futuro, como quem fala de um sonho bom. Juntei minhas vontades com as dele, e as transformamos em momentos perfeitos. Vai ficar guardado cada sorriso que trocamos. Vai ficar guardada cada saudade que não matamos… E se o presente fugiu dos nossos planos, eu pego o que passou e guardo num canto bonito do peito.
Ele é uma das histórias mais lindas que o meu coração tem pra contar…"
É de partir o coração, não é mesmo gente?
Me enviem histórias de vocês por email (amanda_volpato@outlook.com) que vocês queiram compartilhar conosco (pode ser anônimo).
Beijo da Mands!

6 comentários:

  1. Noossa, que texto emocionante, eu visitava muito o blog da Isa, dei uma paradinha.
    Gostei desse espaço que vc abre para as pessoas aqui :)

    Beijinhos,
    www.entrechocolatesemusicas.com

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    1. Acho que muitas pessoas precisam (desaba)fa(r) e não tem pra quem, sabe?

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  2. Adorei o texto, mas não gosto muito da Isabela por algumas atitudes dela.

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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  3. gente que história linda
    é de partir o coração mesmo
    eu jamais conseguiria me colocar no lugar dela pra sentir metade do que ela sentiu
    pois isso é algo que só pesoas muito fortes conseguiriam viver
    história muito comovente mesmo

    http://meumuraldeideias.blogspot.com.br/

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